O problema

Nos últimos 200 anos, a humanidade tem queimado mais e mais carvão, petróleo e gás natural, libertando mais e mais dióxido de carbono (CO2) para o ar. Este dióxido de carbono fica na atmosfera durante muitos anos a absorver calor, tornando o planeta mais quente. Sem estes gases com efeito de estufa (GEE), o nosso planeta seria um sítio inóspito para a vida como a conhecemos, em particular para a espécie humana.

Mas o excesso destes gases na atmosfera, causado por atividades humanas, gera o chamado aquecimento global antropogénico que tem grandes impactos nos ecossistemas: ondas de calor, recordes de temperatura, secas cada vez mais graves e frequentes, incêndios descontrolados, cheias e tempestades, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade, escassez de água e comida, falhas de infraestrutura, pessoas refugiadas do clima e conflitos sociais. Estes impactos afetam diretamente o dia-a-dia de muitos milhões de pessoas. E a cada ano que passa, vão-se tornando mais frequentes e violentos, por causa da chamada “realimentação positiva”.

Inerente a qualquer sistema físico da Terra, há mecanismos que aceleram ou desaceleram o curso inicial das coisas. É o que acontece com uma pequena bola de neve a rebolar por uma colina abaixo. Ela começa com uma dada velocidade inicial. A gravidade aumenta essa velocidade e faz mais neve juntar-se, enquanto a fricção com o chão reduz a velocidade e faz alguma neve soltar-se. Se a velocidade inicial for muito pequena, a bola vai acabar por parar. Se for muito grande, o resultado será um “efeito de bola de neve”: a bola vai acelerar, mais neve se vai agregar, aumentando o seu volume, o que fará com que mais neve se junte e assim sucessivamente.

Estes são “mecanismos de realimentação”. É importante notar que é o próprio mecanismo do sistema que se auto-alimenta (não é preciso empurrar a bola, nem tentar pará-la).

Alguns mecanismos de realimentação são “positivos”, se aumentam ou aceleram a situação inicial (como a gravidade no nosso exemplo), e outros são “negativos” (como a fricção).

Nas alterações climáticas, há vários mecanismos de realimentação positiva. Para dar dois exemplos: 1) a Terra aquece, por isso o gelo do Ártico derrete, tornando-se água; a água absorve mais calor do que o gelo (porque o branco reflete os raios do sol) o que faz a Terra aquecer mais. 2) a Terra aquece, por isso os solos congelados na Sibéria derretem; o metano capturado debaixo desses solos liberta-se, gerando mais efeito de estufa, o que por sua vez faz a Terra aquecer ainda mais.

Os cientistas climáticos preveem que um aquecimento de 2°C (face a níveis pré-industriais) fará com que estes mecanismos de realimentação positiva dominem as dinâmicas do clima da Terra, causando mudanças incontroláveis e galopantes. Por isso se fala num “ponto sem retorno”. E por isso é tão urgente combatê-lo.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a infraestrutura energética existente no mundo em 2017 é já suficiente para nos encerrar numa via para os 2°C de aquecimento. Não podemos construir quaisquer novas centrais, fábricas ou infraestruturas que não sejam “carbonozero”.

A melhor estimativa da ciência é de que temos entre 10 e 20 anos para mudar o curso da civilização humana e iniciar uma transição energética profunda. De acordo com o Climate Fairshares, em Portugal temos de cortar as emissões de gases com efeito de estufa em 60-70% em 10-15 anos.


O clima está a mudar

A crise climática é talvez o maior desafio da História. O aumento da temperatura média faz escassear a água potável e comida nutritiva, despoleta guerras por recursos, fluxos migratórios massivos, tempestades e incêndios que destroem casas, infraestruturas, costas, florestas e colheitas. Isto acontece não por falta de tecnologia alternativa, mas porque o setor energético tem somas exorbitantes investidas em combustíveis fósseis. Estas somas estão a custar a vida, a saúde, a casa e o futuro a muita gente. A ciência prevê que nos restem 30 anos para descarbonizar por completo a economia e evitar um ponto sem retorno nas alterações ao clima.

Precariedade instalada

Com o fim da crise em Portugal, o emprego aumentou, mas a precariedade ficou. Vínculos precários, falsos recibos verdes, horas extra não pagas, insegurança no emprego afetam mais de 1/5 da  população trabalhadora, e quase 2/3 dos jovens. Isto acontece não por falta de recursos, mas porque as empresas se movem pelo o lucro e não para servir as pessoas ou a sociedade. Este lucro está a custar a dignidade e qualidade de vida a muita gente.

Pobreza energética

Portugal é um dos países da UE onde mais se morre de frio. A dificuldade de manter as casas quentes vem da ineficiência energética e mau isolamento dos edifícios, do custo alto da eletricidade  e falta de acesso a tecnologia adequada (como aquecimento central). Este problema afeta sobretudo idosos, crianças, pessoas com doenças físicas ou mentais. E isto acontece não por incompetência técnica, mas porque os setores energético e da construção são movidos pelo lucro em vez do serviço público. Este lucro está a custar a vida, a saúde e o conforto a muita gente.

Custos da mobilidade

Milhares de mortes prematuras e custos altos para a saúde e economia resultam da concentração alta de poluentes no ar. Este problema está ligado a falhas dos transportes públicos e coletivos (em horários, custos frequência, cobertura, climatização), que levam quem pode a recorrer ao transporte individual. O resultado: problemas respiratórios, ruído excessivo, trânsito e falta de acessos a quem não tem carro. Isto não acontece por falta de tecnologia ou recursos, mas porque as transportadoras operam com base no lucro e não no serviço às pessoas.

E agora?

Os problemas são claros, a solução também. Tal como a educação e a saúde, os setores básicos da energia, transportes e construção têm de servir primeiro as pessoas e a sociedade. Seja em alturas de crise, eleições ou boom económico, certos limites não podem ser cruzados: o clima, a vida, a saúde, a habitação, a dignidade do trabalho, o acesso à mobilidade têm de ser garantias absolutas. É preciso recolocar estes recursos na esfera do serviço público, sob controlo de quem trabalha e vive nas comunidades. É preciso algo como um “Serviço Nacional do Clima” para fazer a transição energética de forma socialmente justa em Portugal.