Coberturas verdes e Biosolar roofs – Jéssica Simões Fogeiro, Cristina Matos Silva, Paulo Palha

O Programa de Estabilização Económica e Social (PEES), aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 41/2020, de 6 de junho, estabelece, entre outras, um conjunto de medidas de dinamização económica do emprego.

Este facto é reconhecido igualmente nas ações previstas no roteiro apresentado no final de 2019, que supõe o estabelecimento de uma iniciativa especialmente dedicada à renovação dos edifícios, denominada como Renovation Wave. Este roteiro visa abordar as atuais baixas taxas de renovação em toda a UE, além de fornecer uma estrutura para que a renovação desempenhe um papel fundamental no apoio a uma recuperação verde e digital. Dentro desta linha, a nível nacional, podemos contar com o Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, do Fundo Ambiental, que disponibiliza 4,5 milhões de euros entre 2020 e 2021. Este programa tem como objetivo tornar as habitações energeticamente mais eficientes, através de incentivos à instalação de coberturas verdes, entre outras soluções.

As coberturas verdes são, atualmente, uma forte estratégia e um dos principais métodos para a adaptação das zonas urbanas às alterações climáticas, como referido pela Comissão Europeia (EU Biodiversity Strategy for 2030).

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As coberturas verdes apresentam diversos benefícios hoje em dia chamados de serviços ecossistémicos, que diferem segundo o tipo de cobertura verde. Podem ser considerados benefícios públicos ou privados, consoante se fazem sentir na escala coletiva (ex: melhoria da qualidade do ar) ou individual (ex: redução do consumo energético de uma moradia privada), respetivamente. Alguns dos principais benefícios são:

– Capacidade de retenção de água da chuva, minorando problemas de cheias e inundações em picos de precipitação (Ngan, 2004)
– Melhoria do microclima e consequente redução do efeito de ilha de calor; (Ngan, 2004; Lawlor et al, 2006)
– Promovem a melhoria da qualidade do ar, através da captação de CO2, produção de oxigénio, bem como através da retenção de poeiras e partículas em suspensão no ar; (Tolderlund, 2010; Heller et al 2012)
– Diminuição do ruído; (Renterghem e Botteldooren, 2015; Dunnet e Kingsbury, 2010)
– Promoção da biodiversidade; (English Nature Account 2002 ; Lawlor et al, 2006)
– Redução de custos energéticos pelo isolamento térmico que conferem aos edifícios; Lawlor, 2006; Ngan, 2004; Dunnet e Kingsbury, 2010).
– Redução dos custos de manutenção dos edifícios através da proteção da impermeabilização e redução dos custos energéticos; (Lawlor, 2006; Ngan, 2004).
– Aumento do espaço útil na cidade; (Mitchell et al, 2007, Vries et al, 2003).
– Valorização imobiliária; (Pérez, M., Gabriel, L., 2016)
– Possibilidade de produção de alimentos locais frescos (Hui, S. ; Chan, S.C.,2011)

Coberturas verdes

É designada cobertura verde (ou cobertura ajardinada ou cobertura viva) todo o tipo de instalação de vegetação sobre uma estrutura construída, independentemente do tipo de construção ou do tipo de vegetação. Apenas se excluem as paredes verdes construídas com trepadeiras ou sistemas de jardins verticais. Tipicamente são executadas recorrendo a um sistema com diversos materiais dispostos em camadas, que devem assegurar o bom desenvolvimento da vegetação, respeitando e promovendo a integridade física da estrutura construída.

Existem três tipos de coberturas verdes, a intensiva, semi-intensiva e extensiva.

Cobertura verde extensiva: cobertura de edifícios ou de outras construções com uma camada de vegetação que requer baixa manutenção, uma vez instalada. As plantas da cobertura verde extensiva (suculentas, herbáceas perenes) desenvolvem-se sobre uma camada de substrato com uma espessura máxima de 15cm e, em geral, a vegetação não ultrapassa os 50 cm de altura. O peso do conjunto do perfil de substrato e da vegetação é geralmente inferior a 120kg/m2.

Cobertura verde intensiva: cobertura de edifício e outras construções que apresentam um coberto vegetal de tratamento intensivo ou semi-intensivo requerendo uma manutenção elevada, idêntica à de um jardim convencional. As plantas da cobertura verde intensiva podem ser herbáceas, subarbustos, arbustos e árvores. Desenvolvem-se numa camada de substrato com uma espessura superior a 15cm. O peso conjunto da camada de substrato e da vegetação é superior a 120kg/m2.

Cobertura verde semi-intensiva: cobertura de edifício ou de outras construções que apresentam um coberto vegetal misto (intensivo e extensivo) e que requer manutenção moderada. A vegetação de uma cobertura viva semi-intensiva é geralmente composta por plantas herbáceas, subarbustivas e arbustivas. Desenvolvem-se numa camada de substrato com uma espessura de 10cm a 25cm.

A forma de construção das coberturas verdes pode ser diversa, mas qualquer que seja o caminho, deverá obedecer a regras construtivas, bem definidas no Guia técnico para projeto, construção e manutenção de coberturas verdes, publicado em 2020 pela ANCV com o apoio da Ordem dos Engenheiros – região centro.

Os sistemas construtivos para execução de coberturas verdes são tipicamente constituídos por várias camadas e diversos materiais pois existem necessidades diversas para se garantir o sucesso e a segurança da instalação. Será necessário responder precisamente a diversas questões:

_Como proteger o edifício e a sua impermeabilização?
_Como garantir a drenagem e escoamento de águas pluviais?
_ Qual o peso que o sistema, saturado de água, vai ter sobre a estrutura construída?
_ Como devem ser instaladas e viver as plantas que queremos na cobertura verde?
_ Como garantir a segurança e estabilidade dos materiais?
_Como garantir a segurança dos instaladores e das futuras equipas de manutenção?

Estas questões, entre tantas outras, fazem do dimensionamento, instalação e manutenção de coberturas verdes e jardins verticais, uma nova profissão, que já existe em muitos países que avançaram há muitos anos para políticas de obrigação ou incentivo à sua instalação.

Um instalador de coberturas verdes tem que ter parte da formação de trabalhadores da construção civil, mas muito conhecimento e sensibilidades que tipicamente está reservado aos jardineiros.
É de facto uma nova profissão, que garante o sucesso e a segurança da instalação destas infraestruturas verdes das cidades modernas.

Coberturas verdes – Emprego

Dados fornecidos por um estudo que foi realizado pela equipa do Instituto Superior Técnico dedicada esta temática, indicam que há cerca de 3 209 145 metros quadrados de coberturas de edifícios inutilizadas, e com potencial para colocação de coberturas verdes, no total de 24 freguesias de Lisboa. Do valor referido deve subtrair-se a área média ocupada por equipamentos, como sistemas AVAC, e caminhos de circulação, chegando assim ao valor 1 163 603 m2 disponíveis para colocação de coberturas verdes.

Desenvolvendo um cenário hipotético, de incentivos à instalação de coberturas verdes, em todos os edifícios da cidade de Lisboa com capacidade para receber este sistema, poderíamos prever o impacte que teria na criação de novos empregos diretos, apenas nesta região do país.

De forma e direta, e sabendo que um instalador de coberturas verdes (green roofer) instala cerca de 10m2 de cobertura verde por dia, seriam necessários, durante um ano de trabalho com 231 dias úteis, cerca de 504 pessoas só a executar este tipo de instalações (não contando com necessidades subsequentes de manutenção).

A estes valores deveremos acrescentar a criação indireta de empregos: na produção de sistemas e vegetação, na contratação de meios de elevação, na produção de substratos técnicos, entre outros componentes necessários.

Deveremos também lembrar que, precedendo a instalação de coberturas verdes ou jardins verticais, temos o desenvolvimento dos respetivos projetos e dimensionamentos.

Este cenário simples, deverá ser multiplicado, caso outras cidades, para além de Lisboa, conseguissem rapidamente desenvolver programas de incentivo à instalação de coberturas verdes.

Soluções combinadas

Os chamados Biosolar Roofs correspondem a coberturas verdes que possuem painéis fotovoltaicos. Esta combinação pode ser muito vantajosa pois, os painéis fotovoltaicos produzem mais energia na presença de vegetação, através da redução da temperatura ambiente máxima (Hui, 2011; Kohler, 2008).

Uma investigação conduzida por (Kohler et al 2008), em Berlim, indicou que num biosolar roof, os painéis fotovoltaicos produziram mais energia. Se o microclima em redor aos painéis estiver muito quente, os painéis podem não funcionar da maneira mais eficiente. As coberturas verdes, através da vegetação, ajudam a manter a temperatura ambiente ao redor dos painéis fotovoltaicos, próxima a 25 ° C, a temperatura ideal para a produção de energia solar.

A diversidade da vegetação e da fauna, ao instalar uma cobertura verde com painéis fotovoltaicos deve aumentar, proporcionando espaços de sombra combinadas com o escoamento da chuva, criando assim áreas húmidas à frente e áreas mais secas na parte de trás.

Isto cria um mosaico de habitats que permite uma maior variedade de vegetação a florescer e, por sua vez, atrai uma gama maior de borboletas, abelhas, entre outras espécies.

Em suma, a criação de incentivos à instalação de coberturas verdes criará mais espaços que integrem o corredor verde urbano, ou seja, os benefícios oferecidos pelas coberturas verdes a nível da cidade serão intensificados, tornando as zonas urbanas espaços mais saudáveis e adaptados às alterações climáticas.

Por outro lado, a conjugação dos biosolar roofs, criará uma sinergia entre a produção de energia limpa e sombreamento criado pelos painéis fotovoltaicos, e a redução da temperatura interna de até 4ºC conferida pelo isolamento térmico através da instalação de coberturas verdes, criando assim um grande impacto da eficiência térmica a nível do edifício, contribuindo também para um conforto térmico natural, dentro da habitação.

A instalação de Biosolar Roofs exigirá também conhecimentos mistos, na área das energias solares e das coberturas verdes, sendo em si mesma uma necessidade formativa urgente.

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Esta resumida exposição, pretende explicar o enorme mercado de trabalho, especializado, que o desenvolvimento de medidas e políticas de incentivo à instalação de coberturas e paredes verdes irá provocar em Portugal.

Resultará certamente em cidades mais saudáveis e resilientes, e numa melhor economia e coesão social.


Este contributo foi preparado pela Associação Nacional de Coberturas Verdes.

Jéssica Simões Fogeiro é arquiteta paisagista e Coordenadora Executiva da ANCV. Cristina Matos Silva é engenheira civil e Vice-presidente da ANCV. Paulo Palha é engenheiro agrónomo e Presidente da ANCV.

Referencias

– Communication from The Commission to The European Parliament – EU Biodiversity Strategy for 2030
– English Nature Account 2002 – 2003 (CORP153)
– De Vries, S. Verheij, R. Groenewegen, P. Spreeuwenberg, P. “Natural environments – Healthy envoronments? An exploratory analysis of the relationship between greenspace and health”. Environment and Planning A, 2003.

– Kohler, M.; Schmidt, M.; Laar, M. et al. “Photovoltaic-panels on Greened Roofs. Positive interaction between two elements of sustainable architecture”. 2008
– Dunnet, N. Kingsbury, N. 2010. Planting Green Roofs and Living Walls. Timber Press. London

– Hui, S. ; Chan, S.C. “Integration of green roof and solar photovoltaic systems”, Joint Symposium,
Hong Kong, 2011
– Lawlor, G. Currie, B. Doshi, H. Wieditz, I. “Green Roofs. A Resource Manual for Municipal Policy”, 2006
– Mitchell, R.; Popham, F. “Greenspace, urbanity and health: relationships in England”. Journal of Epidemiology and Community Health, 2007
– Ngan. G. “Green Roof Policies: Tools for Encouraging Sustainable Design”. December, 2004
– Pérez, M., Gabriel, L., Techos Verdes y Mercado Inmobiliario en México, edição nº 32, Tecnología y Construcción, 2016
-Tolderlund L.; Design Guidelines and Maintenance Manual for Green Roofs in the Semi-Arid and Arid West, 2010