Depois do Covid-19, voltar ao normal seria apostar no caos climático.

Enquanto as economias de todo o mundo reagem ao necessário lockdown devido ao Coronavírus, os governos de todo o mundo, em conjunto com os bancos centrais desenham pacotes para evitar o colapso. Adivinham-se layoffs subsidiados, compra de barris de petróleo para fazer subir o preço da matéria-prima, redesenho de cadeias de fornecimento, injecção de dinheiro na banca e, com alguma sorte, distribuição de dinheiro pelos agregados familiares.

A tentar influenciar estes planos temos a voz de Fatih Birol, Director Executivo da Agência Internacional de Energia. O seu apelo é simples, “colocar energia limpa no coração do plano de estímulos para combater a crise do Covid-19”. Este apela um plano de investimento em energias renováveis, como a solar e eólica, chegando mesmo a pedir uma aposta na captura de carbono. Assim, põe na mesa argumentos dignos de um business plan: o menor custo das novas tecnologias, providência de rendas asseguradas a investidores privados, estimular a economia – para claro esta voltar à rota de crescimento.

No entanto, o imperativo das sucessivas taxas de retorno nunca é abandonado. Este é o imperativo presente quando combustíveis fósseis são utilizados em quantidades recorde a cada ano, quando o sistema financeiro é construído como um castelo de cartas pronto a ruir ao menor abano, quando penetramos cada vez mais ecossistemas e entramos em contacto com espécies animais e as doenças que estes desenvolvem – embora ainda não tenha sido provada a origem animal no caso do Covid-19, a origem de doenças por esta via é cada vez mais frequente.

Qualquer agenda para uma transição tem que não ser assente no extractivismo, na subjugação de países do Sul Global aos do Norte Global, na exploração laboral, na complacência com hierarquias na sociedade. Uma transição terá que ir muito mais além além do que apenas procura substituir uma fonte de energia por outra. Uma transição tem que repensar todo o ciclo de produção, o que passa imperativamente por uma rede de transportes públicos abrangentes. Uma transição terá que ter a voz das trabalhadoras como uma componente activa, garantindo assim que esta não deixa ninguém para trás.