Empregos para o Clima na Economia Circular – Ana Matias e Renata Fleck

A economia circular é um conceito abrangente que assume que se deve olhar para lá do atual modelo industrial linear: extrair, produzir e descartar. Pretende redefinir o crescimento e focar-se em benefícios para a sociedade com um todo em vez de apenas para grupos mais restritos e tipicamente mais privilegiados. A necessidade de uma economia circular resulta do reconhecimento de que as fontes de materiais são finitas e que nada é verdadeiramente lixo, podendo ser reconvertido uma e outra vez. Este novo modelo é ainda fulcral para combater as alterações climáticas, o esgotamento de recursos e caminhar finalmente para um crescimento inclusivo. A economia de partilha enriquece o quadro da economia circular estendendo o seu âmbito além das práticas ao nível de produção, envolvendo a sociedade e cidadãos em mudanças comportamentais radicais, mas necessárias.

Fazer uso efetivo dos materiais de que já dispomos pode não parecer assim tão simples e é por isso que deve ser baseado em alguns princípios: priorizar fontes renováveis, colaborar para criar valor acrescentado, preservar o que já está construído, desenhar para o futuro, usar os resíduos como recursos, incorporar tecnologia digital e repensar o modelo de negócio1. A Organização Mundial do Trabalho aponta que, num cenário de economia circular, criar-se-iam quase 100 milhões de empregos adicionais nos sectores de gestão de serviços e gestão de resíduos2.

Investir na alteração e adaptação do design de produtos é essencial para assegurar que estes tenham o maior tempo de vida possível e fiquem, consequentemente, o maior tempo possível dentro da cadeia de valor. É importante incluir estas preocupações desde a fase de projeto, dado que se estima que 80% dos impactos ambientais de todo o ciclo de vida dos produtos sejam determinados durante esta fase. Estender a vida do produto, ao torná-lo mais durável, facilitar os arranjos e a própria reutilização também promoverá a existência e implementação de cada vez mais sistemas de depósito e retorno de produtos (embalagens, por exemplo).

No sector da gestão de resíduos, algumas estimativas demonstram que, por cada 10 000 toneladas de resíduos gerados, cria-se 1 emprego se estes forem incinerados, 6 se seguirem para aterro, 36 se forem reciclados e até 296 se forem reparados e reutilizados3. Contudo, a maioria do investimento que tem sido feito no sector é em melhorar e optimizar as taxas de reciclagem e não em apoiar mecanismos que potenciem uma economia verdadeiramente circular. A reciclagem, apesar de fundamental, deve ser encarada, num contexto de economia circular, como uma estratégia de recurso que é utilizada apenas depois de esgotadas as possibilidades a montante da cadeia: redução, reparação e reutilização.

Os plásticos, em especial os itens domésticos não duráveis, roupas, acessórios e embalagens de bebidas, são responsáveis por 17% dos impactos gerados na vida dos oceanos. Com foco no sector de embalagens plásticas, um estudo de 2016 estimou que 95% do valor do material das embalagens plásticas, avaliado entre 90 a 120 mil milhões de US dólares, é perdido para a economia linear anualmente após ciclos de uso muito curtos4.

No que toca a resíduos eletrónicos, um investimento na reutilização, remodelação (refurbishment) e reparo conduzirá à formação e desenvolvimento de especialistas com capacidades que podem ser transferidas a outros sectores e adicionar valor a toda a economia. Neste sector, a prática de reutilização e reparação poderá empregar mais pessoas por tonelada de aparelhos eletrónicos do que a reciclagem da mesma quantidade. Além do benefício criado para o sector social, a reparação, reutilização e mesmo a reciclagem de aparelhos eletrónicos irá também contribuir para o adiamento indefinido da necessidade de iniciar a explorar recursos minerais em mar profundo. Ainda neste tópico, é urgente o desenvolvimento e implementação de legislação que combata a obsolescência programada que, muitas vezes, conduz ao descarte indiscriminado de produtos que, de outra forma, poderiam ser recuperados e reutilizados.

A produção e consumo têxtil, por último, provocam danos significativos no ambiente, clima e na justiça social ao utilizar recursos, água, terra e químicos e ao emitir gases com efeito de estufa e outros poluentes. O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia estima que 12,2 milhões de toneladas de resíduos têxteis sejam produzidos na Europa anualmente e que 70% vão parar a aterros sanitários ou são incinerados. Dados da plataforma RREUSE demonstram que empresas sociais da sua rede recolhem 200 000 toneladas de têxteis anualmente que são posteriormente divididos em reutilizáveis, recicláveis e não aproveitáveis. Isto promove a criação do equivalente a 20 empregos por 1000 toneladas de roupa e sapatos que são recolhidos e selecionados.

Exemplos de empregos na economia circular

Designer de produtos e de embalagens

Investigador/a (ex: produção e logística, rastreabilidade, reciclagem de materiais não tóxicos)

gestor/a de procura e compras

serviço de atendimento ao cliente pós-venda

aluguer de produtos (ex: vestuário, loiça)

técnico/a de reparação


Ana Matias e Renata Fleck fazem parte da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação, uma Associação Não Governamental (ONG) sem fins lucrativos, de desenvolvimento de projectos de cariz ambiental, em particular de protecção aos oceanos.


1 Circular Jobs: Understanding Employment in the Circular Economy in the Netherlands

2 https://www.iisd.org/system/files/publications/employment-effects-circular-economy.pdf

3 http://www.rreuse.org/wp-content/uploads/Final-briefing-on-reuse-jobs-website-2.pdf

4 https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/33251cf9-3b0b-11e9-8d04-01aa75ed71a1/language-en/format-PDF/source-87705298