Estamos perante um colapso económico em plena pandemia. O que fazemos agora importa. – Robert Pollin

Esta entrevista de C.J. Polychroniou a Robert Pollin foi originalmente publicada no Truthout a dia 18 de Março de 2020.


À medida que a COVID-19 se espalha, a economia dos EUA começa a desmoronar-se como um castelo de cartas.

O súbito colapso da economia está a revelar como a “grande economia” sobre a qual Donald Trump se tem gabado no Twitter nos últimos três anos era de facto uma miragem – apenas um fruto das valorizações especulativas selvagens de Wall Street e impulsionada pelos cortes massivos nos impostos e pelas medidas de desregulação de Trump, que fizeram recuar todas as normas ambientais, com total desconsideração pelo seu impacto na saúde pública e na crise climática.

À medida que as paralisações implementadas para impedir a disseminação do novo coronavírus levam pessoas e empresas à ruína financeira por todo o país, a economia está “a entrar em colapso”, destaca Robert Pollin, Professor de Economia e Co-director do Instituto de Investigação em Economia Política da Universidade de Massachusetts em Amherst, nesta entrevista exclusiva para a Truthout.

Mas Pollin também argumenta que – com as decisões certas – temos os meios não só para recuperar totalmente a economia, mas também para progredir na direcção de uma ordem socioeconómica justa, equitativa e sustentável. A transcrição da entrevista que se segue foi ligeiramente editada devido a limitações de espaço e para maior clareza.

CJ Polychroniou: Poderia dar-nos um resumo sucinto dos mitos e realidades da economia de Trump desde o dia em que ele assumiu o cargo até ao surto de COVID-19?

Robert Pollin: Ao longo da sua presidência, até basicamente à semana passada, o mantra de Trump sobre a economia era que as condições nunca tinham sido melhores. Esta sempre foi uma afirmação ridícula. Mas, ao contrário de muitas outras afirmações de Trump, esta pelo menos baseava-se em alguns factos, como a boa performance do mercado bolsista e a baixa taxa de desemprego. É verdade que, desde Julho passado, o mercado bolsista dos EUA tem atingido um recorde histórico, com o índice S&P500 superior a 3000 pontos pela primeira vez. Também é verdade que a taxa de desemprego oficial atingiu o mínimo histórico de 3,5% em Fevereiro. Segundo o Bureau of Labor Statistics, a última vez que a taxa oficial de desemprego nos EUA ficou abaixo de 3,5% foi em 1953.

Mas a subida da bolsa reflecte, acima de tudo, uma combinação de 1) empresas que inflacionam deliberadamente os preços das suas próprias acções através da reaquisição dessas mesmas acções no mercado aberto; e 2) o reforço, levado a cabo por Trump, da redistribuição de rendimentos em benefício dos mais ricos, que se tem vindo a verificar nos últimos 40 anos de neoliberalismo. Por exemplo, com os cortes nos impostos implementados por Trump desde 2017, os subsídios para os 20% mais pobres da população chegaram a uma média de 100 dólares, enquanto os 1% mais ricos receberam 55000 dólares. Durante a próxima década, os 20% mais pobres iriam assim sofrer uma subida nos seus impostos, enquanto que os 1% mais ricos beneficiariam de mais cortes.

Com esta descida histórica na taxa de desemprego, se contarmos com as pessoas que trabalhavam a tempo parcial mas que queriam empregos a tempo inteiro, e com aquelas que desistiram temporariamente de procurar emprego, além das pessoas que saíram da força de trabalho depois da Grande Recessão de 2007-2009, uma taxa de desemprego mais realista chegaria a cerca de 10%. Isto representa cerca de 16 milhões de pessoas, o que é aproximadamente o mesmo que toda a população de Nova Iorque, Los Angeles ou Chicago. Além disso, os salários só começaram a aumentar com a taxa de desemprego no seu nível historicamente baixo. E isto foi depois de 40 anos em que a maioria dos trabalhadores tinha salários reais estagnados ou em decrescimento.

Em suma, a nossa economia actual nunca esteve próxima da imagem dourada projectada por Trump até esta semana. De qualquer forma, todas estas descrições cor-de-rosa são agora uma coisa do passado.

Como é que o novo coronavírus afectou a economia dos EUA? Acha que existem impactos de curto e de longo prazo?

O coronavírus está literalmente a devastar a economia dos EUA. Eu aqui não me quero focar no mercado de acções que caiu cerca de 20% desde o seu pico a 14 de Fevereiro. Mais concretamente: se somarmos o emprego actual nas indústrias de turismo e lazer – incluindo restaurantes, bares e hotéis – mais o comércio retalhista e os transportes, estamos a falar de 38 milhões de empregos. Isto representa aproximadamente 25% de todo o emprego na economia dos EUA. Agora, vamos supor, de forma conservadora, que metade destas pessoas sejam despedidas, ou pelo menos colocadas com licenças sem vencimento. Isto são quase 20 milhões de pessoas. A menos que o governo tome medidas drásticas, isto, por si só, poderia facilmente elevar a taxa de desemprego oficial acima dos 10% numa questão de semanas, ou seja, para um valor superior à pior fase da Grande Recessão. A percentagem efectiva de pessoas que estão a enfrentar dificuldades sérias nos seus empregos – ou seja, falta de remuneração devido a licenças sem vencimento ou reduções de horas – poderia facilmente ser pelo menos o dobro deste número, ou seja, 20% ou mais. Esses cálculos aproximados nem sequer têm em conta o facto de que as receitas fiscais do governo estão a afundar-se porque as pessoas estão a perder os seus rendimentos e a reduzir as suas despesas. Com os governos a perderem receitas fiscais, como é que vão buscar os fundos para pagar aos professores, aos bombeiros, aos polícias e mesmo aos profissionais de saúde?

Tudo isto não são meros eventos de “curto prazo”. São efeitos imediatos, a acontecer agora mesmo, a um ritmo vertiginoso. Também haverá efeitos profundos a longo prazo. Mas exactamente quais serão esses efeitos dependerá de como intervirmos politicamente nesta crise. Por exemplo, a Reserva Federal já anunciou que está preparada para resgatar Wall Street mais uma vez, com o mesmo tipo de intervenções realizadas durante a crise de 2007-2009. Mas talvez desta vez possamos defender com sucesso que pelo menos uma parte significativa dos mercados financeiros tem de ser nacionalizada, e não apenas resgatada. Um resgate de todo o mercado financeiro significa que Wall Street continua a funcionar como uma variante perversa do socialismo que emergiu sob o neoliberalismo – ou seja, os riscos de Wall Street são suportados pela sociedade como um todo, enquanto os seus lucros ficam para si próprios.

O mercado de acções recuperou bastante na semana passada após o anúncio de uma emergência nacional feito por Trump devido à COVID-19. Mas o mercado voltou a cair na segunda-feira passada, passando pelo pior dia desde a queda de 1987. Quão significativas são estas oscilações do mercado de acções do ponto de vista macroeconómico?

O que quer que aconteça com o mercado de acções, por si só, não faz com que a economia tenha um melhor ou pior desempenho. O facto é que, como expliquei acima, o nível “estratosférico” que os mercados bolsistas atingiu antes da chegada do coronavírus resultou não só das manipulações do mercado pelas grandes empresas que compram as suas próprias acções, como também da redistribuição desigual dos rendimentos, favorecendo as classes mais altas. Assim, um declínio ordeiro e a longo prazo do mercado de acções seria uma coisa boa se significasse uma redução na manipulação do mercado e uma inversão do aumento da desigualdade a longo prazo. Porém, a actual volatilidade do mercado reflecte a expectativa de que a economia real – que inclui os rendimentos das pessoas, os empregos, as pensões e a cobertura dos cuidados de saúde, e não apenas os preços das acções – está a sofrer um colapso. Se, por exemplo, a taxa oficial de desemprego subir para 10% ou mais, não haverá esquemas sofisticados de compra de acções ou mais cortes fiscais para os ricos, que possam compensar um declínio global da actividade económica desta magnitude. Uma economia com uma taxa oficial de desemprego de 10% levará a enormes quedas nos investimentos produtivos reais por parte das empresas privadas – ou seja, pessoas que abrem novos negócios, que adquirem equipamentos, ou que contratam pessoas para expandir as suas operações comerciais. Quando isto acontecer, os preços dos mercados bolsistas continuarão a cair, como indicador do que se passa na economia real.

Dado que estamos claramente no meio de uma crise de saúde pública e económica, que medidas realistas estão à disposição dos decisores políticos, não apenas para evitar um colapso económico, mas também para colocar a economia dos EUA num caminho verdadeiramente sustentável e equitativo?

O primeiro passo implica fazer todos os possíveis para lidar com a emergência na saúde. Isto significa, efectivamente, que o Medicare for All deve ser colocado em funcionamento imediatamente, pelo menos até que a crise abrande. Ou seja, todas as pessoas têm que ter a oportunidade de ser testadas e tratadas para o novo coronavírus, sem terem qualquer tipo de preocupação financeira. Esta é a única maneira pela qual a propagação do vírus pode ser controlada. Após o fim da crise, deveria tornar-se óbvio que o Medicare for All tem de estar em vigor sempre. Teremos que lutar por isso depois desta crise melhorar.

Ao mesmo tempo que garantimos que as pessoas recebem o tratamento de que precisam, temos que expandir drasticamente e imediatamente a nossa capacidade de tratar as pessoas. Isso significa criar instalações hospitalares temporárias de acordo com as necessidades, por exemplo nos dormitórios universitários e nos hotéis que estão agora vazios. Isto significa expandir as equipas de saúde, criando empregos para os profissionais de saúde que estão desempregados ou sub-empregados, bem como trazer os profissionais de saúde reformados de volta à força de trabalho. Isto não acontecerá a menos que estes trabalhadores – juntamente com todos os outros profissionais de saúde – recebam um bom salário para enfrentar os enormes desafios que terão pela frente.

Temos então que garantir que as pessoas que sofrem perdas de rendimento tenham dinheiro no bolso. Todos os trabalhadores têm, portanto, que estar seguros de que terão direito a subsídio por baixa médica. Neste momento, 24% de todos os trabalhadores não têm direito a baixa médica remunerada. E este subsídio está enviesado em relação aos trabalhadores mais bem pagos. Cerca de 70% dos trabalhadores com salários baixos (que representam os 10% mais pobres) não recebem subsídios por baixa médica. No entanto, estes serão os mais prejudicados pelo desemprego e “lay-offs”.

Além de conceder baixa médica a todos, o Governo Federal tem que enviar cheques a todos, assim como George W. Bush fez em 2001, após o colapso de Wall Street naquele ano (que ocorreu antes do 11 de Setembro). O programa Bush incluiu cheques de 300 a 600 dólares para dois terços das famílias americanas. Agora justifica-se algo na ordem do dobro desses valores – por exemplo entre 1500 a 2000 dólares por família, para começar. É provável que seja necessário mais, dependendo do curso da crise.

Apoiar diretamente as pessoas dando-lhes dinheiro é uma intervenção muito mais eficaz neste momento do que os cortes nos impostos sobre os salários que estão a ser avançados por Trump. Por um lado, os cortes nestes impostos vão ser feitos gradualmente ao passo em que os rendimentos das pessoas vão desaparecer de imediato com os despedimentos e “lay-offs” em massa. Com estes cortes, as pessoas com rendimentos mais altos continuarão a receber mais dinheiro, quando o que precisamos são subsídios que ajudem mais as pessoas de rendimentos mais baixos, que enfrentarão maiores dificuldades. Os cortes nos impostos sobre os salários também não vão ajudar em nada as pessoas desempregadas. Portanto, também precisamos de expandir em grande escala os subsídios de desemprego. As empresas devem receber créditos fiscais para compensar o prolongamento das baixas médicas dos seus trabalhadores. Estas empresas também devem receber alguma redução de impostos ou crédito para ajudar a mantê-los à tona durante a crise. Mas, de qualquer forma, usar os cortes nos impostos sobre os salários como ferramenta de estímulo é perigoso, pois são estes impostos que financiam a Segurança Social.

Todas estas medidas vão exigir, naturalmente, muito dinheiro, e imediatamente. Este é o momento em que o défice fiscal do Governo Federal, de 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB), atinge um máximo histórico durante um período de expansão económica. O nosso actual elevado défice federal é o resultado directo dos cortes fiscais de Trump para os ricos. Mas neste momento não nos podemos preocupar com o aumento do défice, pelo menos essa não deve ser a prioridade. Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, o défice federal subiu para quase 27% do PIB. Ainda temos um longo caminho a percorrer até atingir esse nível.

Além disso, se o défice federal subir para algo próximo desse nível, a Reserva Federal pode simplesmente comprar o excesso de oferta de títulos do governo dos EUA, o que é chamado de “monetização da dívida” em linguagem técnica. Isto permite ao governo imprimir dinheiro para financiar as intervenções governamentais necessárias para combater eficazmente a crise. Não sou a favor dessa abordagem ao financiamento do governo na maior parte das circunstâncias, ao contrário de outros economistas progressistas. Mas, neste momento, temos que usar todas as ferramentas políticas disponíveis para evitar um colapso económico em plena pandemia de cuidados de saúde.