Plano inclinado – Diogo Silva (Expresso)

Vivemos em crise, mas não é de agora. Hoje é uma pandemia, amanhã uma nova crise económica e a crise climática continua a agravar-se. O Estado pode não servir só para emergências temporárias e o estado a que isto chegou é de crise estrutural. É possível resolver uma crise económica saindo também da crise climática de forma justa.


Em 2018, o relatório da ONU que reúne o consenso científico vigente ditou que temos até 2030 para reduzir a metade as emissões globais de gases com efeito de estufa. Se quisermos evitar a perda de ainda mais vidas para uma crise para a qual já temos soluções, isto implica uma redução sem precedentes de 8% ao ano. Se sairmos desta crise económica com os mesmos planos com que saímos da última, 2021 será de novo um ano com emissões recordistas.

Há um plano para o qual o Governo parece já estar inclinado: investir o dinheiro dos contribuintes nas empresas fósseis, que nos queimaram o futuro mas agora vêm em risco novos investimentos fósseis; em mais aeroportos; em expansão de portos; em mais turismo com o mesmo grau de dependência económica e trabalhos mal pagos e inseguros; em continuar um modelo de des-envolvimento, que só parece frisar ainda mais a sensação de “salve-se quem puder”, deixando incólume uma meritocracia distópica que ignora a desigualdade de condições de base para fazer face a qualquer crise e chegar ao fim do mês. O problema é que o suposto milagre económico português, saído dos últimos planos semelhantes, foi um pesadelo real para quem perdeu rendimentos e ganhou contas mais caras para pagar. O salário mínimo é hoje de apenas mais 78 euros mensais que em 1974 e quase uma em cada cinco pessoas no nosso país vive em risco de pobreza. Esta é a realidade dura com que muitas pessoas vivem no nosso país há demasiado tempo.

Felizmente, há alternativas. O Estado pode não servir só para emergências temporárias e o estado a que isto chegou é de crise estrutural. É possível resolver uma crise económica saindo também da crise climática de forma justa.

Há 3 anos que existe um plano lançado pelo coletivo ativista Climáximo: a campanha Empregos para o Clima. Propomos um investimento anual de apenas 2% do PIB que criaria 100.000 novos empregos públicos em dez anos e reduziria emissões em 60%. Temos 10 medidas concretas que podiam ser aprovadas já nesta legislatura e nos deixariam no caminho certo para a próxima. Por estas 10 e muitas outras razões, a campanha tem reunido o apoio de cada vez mais sindicatos, associações ambientalistas e coletivos ativistas. Precisamos hoje, mais do que nunca, de empregos para o clima: planos que fazem face à crise económica, diminuindo de forma decisiva as desigualdades existentes em Portugal e trazendo um futuro mais risonho às próximas gerações.

Outro mundo vai ser possível quando nos libertarmos das ideias que dominam o discurso, usarmos a nossa imaginação para pensar um futuro diferente e a nossa ação para o concretizar. Outro mundo vai ser possível, quando deixarmos de aceitar o que é e lutarmos pelo que pode ser. Outro mundo vai ser possível quando deixarmos de ficar a ver a história a ser feita na mesma direção e fizermos parte da mudança do sentido da história.


Artigo originalmente publicado no Expresso a dia 19 de Março de 2020.