Urgência climática e Urgência na valorização dos Vigilantes da Natureza – Carla Luís, Sílvia Acabado, Francisco Correia

Um dos maiores problemas que a humanidade enfrenta são as alterações climáticas, devido em grande parte à desflorestação a nível mundial e à queima de combustíveis fósseis que resultam em excessivas emissões de dióxido de carbono. Os Vigilantes da Natureza no exercício das suas funções dão um valioso contributo no combate ao aquecimento global e às mudanças climáticas.

Todos temos a noção que as mudanças climáticas implicam alterações drásticas que afetam a vida de pessoas, plantas e animais, como já sentimos no nosso país, com o aumento dos incêndios e da sua intensidade, do maior número de tempestades, das chuvas mais violentas que estão a provocar danos nos ecossistemas, erosão, deslizamento de terras e a sedimentação das linhas de água. Valorizar os Vigilantes da Natureza pode ser um dos contributos da sociedade para combater as alterações climáticas, porque sem a presença diária destes profissionais, durante os 365 dias do ano, provavelmente muitas das nossas florestas, bosques e pradarias marinhas deixariam de existir e são elas que sequestram grande percentagem do carbono, têm o efeito de amenizar o clima e são habitat de inúmeros animais e de plantas.

Um dos mais importantes desafios que os Vigilantes da Natureza enfrentam é tentar dar resposta às mudanças climáticas.

As áreas protegidas contêm as paisagens mais valiosas do país, sendo os seus recursos naturais e culturais importantíssimos para nos elucidar como continuar a conservar a natureza e assim contribuir para preservá-la para as gerações futuras. Alguns estudos dedicados às consequências das alterações climáticas indicam o aumento da taxa de extinção de espécies, transformações nas cadeias tróficas, aumento da incidência e distribuição de pragas, doenças nas plantas e animais e aumento das espécies exóticas. As áreas protegidas são exemplos visíveis de como as alterações climáticas podem afetar os recursos naturais e mesmo os culturais e os Vigilantes da Natureza estão na linha da frente no combate às mudanças climáticas ao transmitirem informações sobre os seus impactos e as medidas que se deverão tomar para se alterar o rumo a seguir.

Os esforços de resposta às mudanças climáticas por parte dos Vigilantes da Natureza assenta também na fiscalização e monitorização das indústrias que emitem gases que produzem efeito de estufa.

Através da educação ambiental temos a oportunidade de levar o conceito aparentemente distante e torná-lo tangível e real. Temos como missão transmitir aos cidadãos que devem evitar poluir para assim reduzirmos a ameaça das alterações climáticas e os seus impactos adversos para o futuro da humanidade, mas fazemo-lo através de uma mensagem positiva e de esperança para que as pessoas entendam que está nas suas mãos a mudança de rumo.

Esperamos que as entidades que nos tutelam considerem este desígnio uma prioridade e reforcem e valorizem o Corpo Nacional de Vigilantes da Natureza.

Defendemos a conservação e recuperação dos ecossistemas que se encontram degradados, danificados ou destruídos com o objetivo de alcançar a conservação e reposição dos serviços de ecossistemas e da biodiversidade.

Como é do conhecimento geral algumas das fontes de contaminação química em Portugal mais agressivas para o ambiente têm origem no local onde se situam as unidades industriais, mas também em muitos dos locais onde são fabricados os produtos finais por outras fábricas. A indústria do cloro é uma das mais fortes no ramo químico, tem muitas ramificações, uma vez que as substâncias derivadas desse produto são utilizadas nos mais diversos setores como no dos pesticidas, dos solventes e na indústria do papel. A indústria do papel tem sido protagonista dos episódios mais mediáticos de contaminação conhecidos no nosso país, ninguém se esquece dos recentes casos de contaminação no Rio Tejo que poderiam ter sido minimizados ou mesmo evitados se existisse um efetivo suficiente de Vigilantes da Natureza, dotados dos meios tecnológicos para efetuar a monitorização e fiscalização dessas estruturas industriais. As instalações de tratamento de resíduos, sejam estes Resíduos Sólidos Urbanos ou resíduos industriais, são responsáveis pelas emissões de poluentes que produzem dioxinas e furanos que contaminam o meio ambiente e chegam até nós através da dieta alimentar e que poderiam ser controlados se existisse uma aposta séria na fiscalização. A indústria metalúrgica liberta uma grande variedade de substâncias, entre as quais estão os sólidos em suspensão e metais pesados, enquanto a indústria têxtil utiliza substâncias tóxicas para o tratamento dos tecidos, sendo ambas responsáveis pela emissão de grandes quantidades de substâncias para a atmosfera, água e solo.

Os solos contaminados têm implicações diretas nos lençóis freáticos, que irão contaminar os recursos hídricos e que terão impactos também na qualidade do ar, o que poderá ser um grave problema para a saúde pública e para o ambiente. Esta situação não tem merecido a atenção devida das entidades responsáveis pelo que consideramos imperativo que haja um efetivo e eficaz investimento na fiscalização e na consequente reposição da qualidade dos solos. A Região Norte de Portugal concentra cerca de 47% das indústrias transformadoras existentes em Portugal e é a zona do país onde não existe nenhum Vigilante da Natureza na Agência Portuguesa do Ambiente e na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, sendo uma situação que nos preocupa e que não nos cansamos de denunciar.

Na era da globalização e num contexto de alterações climáticas, as ameaças de natureza fitossanitária multiplicam-se. Atualmente, esta é uma das maiores preocupações globais, tendo 2020 sido declarado Ano Internacional da Fitossanidade pela ONU, no sentido de “aumentar a consciencialização global sobre como proteger a saúde das plantas e ajudar a acabar com a fome, reduzir a pobreza, proteger o meio ambiente e impulsionar o desenvolvimento económico”. A FAO vem também relembrar que as plantas “são a fonte do ar que respiramos e a maioria dos alimentos que ingerimos”. E que todos os anos até 40% das culturas alimentares são perdidas devido a pragas e doenças.

Quer as florestas, quer os agentes bióticos nocivos que as afetam dependem diretamente de variáveis climáticas. No atual contexto de alterações climáticas há um aumento significativo da probabilidade de emergência de novas e mais agressivas pragas e doenças, não só na saúde humana, como na saúde das plantas.

O papel do Vigilante da Natureza na salvaguarda do património natural, nomeadamente em questões relacionadas com a floresta, prende-se, não só, com a fiscalização das boas práticas para garantir a preservação desse património, mas também na monitorização da salubridade dos ecossistemas florestais, nomeadamente através de missões de prospeção de agentes bióticos nocivos, que podem provocar declínio ou mesmo a morte de povoamentos florestais.

Dessa forma, podemos afirmar que os Vigilantes da Natureza contribuem para a saúde dos ecossistemas florestais, que, por sua vez, preservam a qualidade dos solos e diminuem a desertificação.

Um ecossistema florestal saudável e diversificado é fundamental na manutenção do clima local e no reequilíbrio do planeta.

Os Vigilantes da Natureza a prestar funções nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional efetuam a recolha de dados nas estações que medem a qualidade do ar, tendo em conta as normas, as orientações e os programas da Organização Mundial de Saúde, para os poluentes dióxido de enxofre, dióxido de azoto, óxidos de azoto, partículas PM10 e PM2,5, chumbo, benzeno, monóxido de carbono, ozono, arsénio, cádmio, níquel, mercúrio e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, com a finalidade de prevenir ou reduzir os efeitos nocivos para a saúde humana e para o ambiente.

Consideramos urgente e fundamental um real investimento na recuperação das florestas autóctones e nos profissionais dedicados à sua proteção para que seja possível enfrentar as mudanças climáticas.

O êxito do combate às alterações climáticas não passa simplesmente pela aposta na reflorestação, deverá existir investimento e valorização dos Vigilantes da Natureza para que se evitem as emissões de gases responsáveis pela destruição da camada de ozono, da poluição das águas, contaminação dos solos, poluição do ar e para que a monitorização de espécies e habitats seja efetuada e divulgada de modo a envolver ativamente a sociedade civil neste combate pela vida do planeta.


Carla Luís, Sílvia Acabado e Francisco Correia fazem parte da Associação Portuguesa de Guardas e Vigilantes da Natureza.