O Contributo dos Recursos Hídricos Subterrâneos – Luís Ribeiro, IST

O Contributo dos Recursos Hídricos Subterrâneos – Luís Ribeiro, IST

1 INTRODUÇÃO

a) É unanimemente reconhecido que os recursos hídricos constituem um domínio fundamental para a avaliação dos impactos das alterações climáticas nas actividades humanas. Esta relevância resulta da circunstância de as alterações climáticas terem impactos directos no regime de ocorrência e disponibilidade dos recursos hídricos, e também do facto de este regime condicionar, por sua vez e de forma importante, uma multiplicidade de sectores da actividade económica e social. A água é utilizada não só para satisfazer diversas actividades humanas, como, por exemplo, as domésticas, industriais, agrícolas, energéticas, piscícolas, recreativas, de navegação e de depuração de efluentes, mas também para assegurar uma boa qualidade ambiental e uma boa saúde dos ecosistemas.

Na realidade, a disponibilidade de água de qualidade adequada e a ocorrência dos fenómenos extremos relacionados com a água – as cheias e as secas – condicionam a localização dos aglomerados urbanos, das áreas industriais e agrícolas, dos centros de produção de energia e das actividades comerciais.

Os impactos das alterações climáticas sobre os recursos hídricos podem ser directos, quando resultam directamente das alterações climáticas, ou indirectos, quando resultam de modificações do sistema económico-social induzidas pelas alterações climáticas. Percebe-se pois a complexidade dos problemas em discussão que, por isso, requerem uma abordagem interdisciplinar

O estudo das alterações climáticas tem vindo a ser objecto de várias iniciativas internacionais e nacionais que procuram quantificar cenários climáticos, estudar os seus impactos e propor medidas de mitigação e de adaptação [1].

b) As águas subterrâneas são um recurso natural imprescindível para a vida e para a integridade dos ecossistemas, representando mais de 95% das reservas de água doce exploráveis do globo. Delas dependem, em larga medida, as actividades agrícolas e industriais, constituindo ainda as águas subterrâneas uma componente fundamental no abastecimento público. Na realidade, mais de metade da população mundial depende das águas subterrâneas. Na Europa as águas subterrâneas fornecem cerca de 65% da água destinada ao consumo humano. As águas subterrâneas têm características que as diferenciam das águas superficiais, tais como os maiores tempos de residência e as muito menores velocidades de circulação, de que resulta uma maior interacção água-rocha. São, por esse motivo, consideradas geologicamente dependentes. Em Portugal ocorrem sistemas geológicos de vários tipos (poroso, fissurado e cársico) que condicionam o armazenamento e a transmissão da água subterrânea. Existem observatórios singulares de interacção com outros meios aquáticos em diversos ambientes climáticos como sejam os rios, os estuários e os oceanos e manifestações significativas de fenómenos de características hidrominerais e hidrotermais. Estão identificados 62 sistemas aquíferos irregularmente distribuídos pelo País que fornecem água para consumo humano de muitos concelhos com especial relevância para os distritos de Setúbal, Leiria, Santarém, Coimbra e Aveiro, zonas onde se situam aquíferos de elevada produtividade, como é o caso dos sistemas que integram a Unidade Hidrogeológica da Bacia Tejo-Sado e a Orla Ocidental. Se para as actividades industriais o consumo de água subterrânea é da ordem de 50%, já para as actividades agrícolas esse valor atinge os 65 % com especial incidência nas Bacias Hidrográficas dos rios Tejo, Douro e Mondego [2].

2 IMPACTOSalentejo

Devido à estreita relação entre os fenómenos climáticos e o ciclo hidrológico são previsíveis os seguintes impactos directos e indirectos das alterações climáticas nas águas subterrâneas:

  • alterações no regime de precipitação e de evapotranspiração que irão influenciar a recarga;
  • aumento da intensidade da precipitação que poderá conduzir a maior escoamento superficial e menor recarga efectiva;
  • alterações dos padrões de vegetação natural e de culturas que irão influenciar a recarga;
  • subida do nível médio do mar que irá provocar intrusão salina em aquíferos costeiros e ilhas;
  • aumento de fenómenos de cheias que afectará a qualidade da água subterrânea em aquíferos aluvionares;
  • alterações da concentração de CO2 que irão influenciar os processos de dissolução dos carbonatos, aumentando a carsificação;
  • alteração das concentrações de carbono orgânico no solo que deverão afectar as propriedades de infiltração dos aquíferos;

3 MITIGAÇÃO

Devido às especificidades dos aquíferos, estes são um veículo privilegiado para a transferência de calor. Desta notável propriedade nasce uma potencial área geradora de Empregos para o Clima, que é o desenvolvimento e implementação de bombas de calor geotérmico que tem um potencial de poupança de produção eléctrica e suas emissões.

Uma bomba de calor geotérmico é um sistema central de aquecimento e/ou arrefecimento que transfere calor para ou a partir do solo. Ela usa a terra como uma fonte de calor (no inverno) ou um dissipador de calor (no verão). Este projecto aproveita as temperaturas moderadas no solo para aumentar a eficiência e reduzir os custos operacionais dos sistemas de aquecimento e refrigeração podendo ser combinado com o aquecimento solar para formar um sistema geosolar com ainda maior eficiência. As bombas de calor podem transferir o calor de um espaço frio para um espaço quente, contra a direcção natural do fluxo, ou podem melhorar o fluxo natural de calor de uma área quente para uma fria. É um processo mais eficiente em termos energéticos, porque as temperaturas subterrâneas são mais estáveis do que as temperaturas do ar ao longo do ano. As bombas de calor geotérmico aquecem e refrescam os edifícios concentrando o calor naturalmente existente dentro da terra. São assim uma fonte de energia limpa, confiável e renovável.

4 ADAPTAÇÃO

Em resultado do que se referiu, é forçoso reconhecer que as alterações climáticas vêm condicionar as práticas prevalecentes de gestão de recursos hídricos, introduzindo incertezas adicionais e impondo a necessidade do reforço da capacidade de adaptação dos sistemas hídricos às alterações climáticas.

Deste modo torna-se fundamental planear a adaptação às alterações climáticas (e.g. desenvolver estratégias políticas ou aplicar medidas de adaptação), um desafio relativamente novo para decisores e técnicos à escala nacional.

Todos os sectores têm de tomar hoje, decisões sobre estratégias, medidas e investimentos que se esperam poder proteger os seus sistemas contra vulnerabilidades associadas a potenciais alterações climáticas.

Assim o objectivo final é: diminuir a vulnerabilidade de Portugal aos impactos das alterações climáticas relacionados com os recursos hídricos de forma sustentável do ponto de vista técnico, económico, ambiental e social; tendo como objectivos estratégicos [1]:

a) A gestão da procura de água (redução da dependência da disponibilidade de água);
b) A protecção das massas de água e dos ecossistemas dependentes;
c) O reforço da segurança da disponibilidade de água;
d) A gestão do risco;
e) A redução das pressões sobre o meio hídrico;
f) O aperfeiçoamento dos processos de planeamento e gestão dos recursos hídricos
g) A promoção programas de medidas de protecção
h) A implementação de sistemas de monitorização, detecção e alerta precoce
i) A sensibilização pública e capacitação técnica

Mais especificamente na área dos Recursos Hídricos Subterrâneos podemos identificar as seguintes áreas geradoras de Empregos para o Clima:

a) Aprofundamento dos modelos de gestão integrada águas superficiais / águas subterrâneas
b) Avaliação e caracterização de recursos hídricos subterrâneos nas cidades para uso alternativo em funções como rega de jardins e espaços verdes, lavagem de ruas e outas funções que não as de consumo humano.
c) Utilização das águas subterrâneas aproveitando as suas características resilientes em cenários prolongados de escassez de água.
d) Desenvolvimento de sistemas de recarga artificial de aquíferos como forma de aproveitamento de águas de chuva em cenários de pluviosidade extrema.
e) Aproveitamento energético de águas termais

E ainda :

f) Reactivação das cisternas nas grandes urbes como forma de armazenamento da água da chuva para fins múltiplos.
g) Desenvolvimento de sistemas de captação de água de neblinas por meios naturais (sistemas arbóreos) ou artificiais com a construção de infraestruturas de armazenamento e distribuição.

Luís Ribeiro
Professor Associado com agregação
Departamento de Engª Civil, Arquitectura e Georrecursos
Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

REFERÊNCIAS

[1] VEIGA DA CUNHA L, RIBEIRO L.,. OLIVEIRA R., NASCIMENTO J., MONTEIRO J.P, NUNES L.M. DILL A, C. (2006) – Recursos Hídricos, in Santos F.D. & Miranda P. (eds) Alterações Climáticas em Portugal: Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação, projecto SIAM II, cap.3, pp. 115-168, Gradiva, Lisboa, ISBN 989-616-081-3.

[2] RIBEIRO L. (editor) (2002) Recursos Hídricos Subterrâneos de Portugal Continental, edição INAG, 94p., Lisboa, ISBN 972-9412-69-3


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