COMUNICADO: Campanha Empregos Para o Clima defende prioridade aos trabalhadores no encerramento das centrais a carvão

icones_empregos_clima_w-02

A campanha Empregos para o Clima defende a requalificação dos trabalhadores que vão perder o emprego em virtude do encerramento das centrais termoeléctricas para empregos públicos nas energias renováveis.

A Campanha Empregos para o Clima considera que o anúncio do encerramento das centrais termoeléctricas do Pego e de Sines até 2021 e 2023, respectivamente, é potencialmente positivo, mas poderá não ser uma solução justa para a descarbonização, já que deixa em aberto questões fulcrais como o futuro dos trabalhadores destas centrais, as fontes energéticas que irão substituir a produção das centrais e a democracia e soberania energética.

A ciência climática diz-nos que as emissões globais de gases com efeito de estufa têm de ser reduzidas para metade nos próximos 10 anos, de forma a ser evitável o colapso das condições físicas que sustêm a humanidade como a conhecemos. O sector da produção energética é o maior contribuinte para as emissões de gases com efeito de estufa em Portugal, e as centrais de Sines e do Pego representam, por si só, até 20% do total de emissões. Contudo, se o seu encerramento não for acompanhado da defesa dos postos de trabalho das centenas de trabalhadores, e de um plano que efectivamente contemple uma transição justa para a produção de energias de fontes renováveis, o acesso igualitário à energia e a independência face às importações de electricidade, não é uma solução para a crise climática nem para as desigualdades sociais.

É imperioso que exista uma transição justa para os trabalhadores e trabalhadoras de ambas as centrais termoeléctricas, protegendo os seus postos de trabalho. A Campanha Empregos para o Clima há muito reivindica que a estes trabalhadores seja, desde já, dada formação profissional adequada, um dia por semana, para poderem transitar, directamente e de forma prioritária, para empregos públicos em áreas de baixo carbono, nomeadamente nas energias renováveis, como as novas instalações do sector solar fotovoltaico que estão previstas para os próximos anos.

A justiça climática não pode ser dissociada da justiça social; deixar centenas de trabalhadores qualificados no desemprego, sem alternativa, nunca será uma boa solução para a descarbonização da energia. A reconversão profissional destas pessoas para empregos nas energias renováveis deve começar de imediato e deve ser o Estado a assegurar que a produção de electricidade seja descentralizada e esteja a cargo de uma empresa pública de energias renováveis. Desconhece-se ao certo qual é o plano do governo para substituir a electricidade produzida pela combustão do carvão: se é a importação de energia, externalizando as emissões que neste caso seriam potencialmente superiores; se é a conversão das centrais para combustão de biomassa, o que agrava o problema das monoculturas florestais; ou, se a alternativa é a combustão de gás fóssil, que pode ter uma pegada de carbono ainda superior à do carvão, sobretudo quando o método de extracção é o fracking e acrescem ainda as perdas e as emissões associadas ao transporte do gás.” – afirma Andreia Ferreira, da Campanha Empregos Para o Clima.

Luís Fazendeiro aponta ainda que “seria importante aferir os motivos que levaram o PS a alterar o seu programa eleitoral, que previa o encerramento ou reconversão das centrais termoelétricas do Pego até 2023 e de Sines entre 2025 e 2030, sobretudo quando há poucos meses Governo e EDP avisavam que seria completamente impossível o fim da electricidade a carvão já na próxima legislatura. É também muito problemático que o primeiro-ministro tenha referido «a conclusão das barragens do Alto Tâmega e de uma nova linha de alta tensão que abasteça o Algarve, já planeada e prevista para meados de 2022» como as condições necessárias para o encerramento das duas centrais. Tal como a recente vaga de incêndios na Califórnia e os sucessivos “apagões” que deixaram milhões de pessoas sem acesso a energia eléctrica tem demonstrado, é cada vez mais arriscado depender da geração centralizada de electricidade e depois transportá-la ao longo de centenas de quilómetros de redes de alta tensão.”

A continuação da estratégia de grandes obras, a reboque dos grandes interesses privados e sem ter em conta a justiça social, é uma contradição ao que deve ser um processo democrático de transição energética. A produção de energia solar fotovoltaica ou de energia eólica podem ser implementadas de forma descentralizada, com a energia a ser gerada o mais próximo possível de onde vai ser consumida, com controlo público e gerando milhares de novos empregos dignos, conforme reivindica a Campanha Empregos pelo Clima, que continuará a lutar por uma transição justa e acelerada, que inclua a criação de uma empresa pública de energia renovável e coloque os trabalhadores das indústrias mais poluentes no centro do processo de transição.