O problema das alterações climáticas – Filipe Carvalho, Climáximo

O problema das alterações climáticas – Filipe Carvalho, Climáximo

Desde a Revolução Industrial e a invenção da máquina a vapor que a Humanidade utiliza combustíveis fósseis de forma massiva e intensiva. Carvão, petróleo, gás: estes combustíveis libertam gases de efeito de estufa (GEE), como o dióxido de carbono (CO2), para a atmosfera, ao serem queimados. Durante milénios, os níveis de CO2 na atmosfera oscilaram entre cerca de 180 ppm e 300 ppm, ou seja, ao longo de muito tempo estes níveis tiveram variações da ordem dos 120 ppm. Em 1960, esta concentração atingia cerca de 320 ppm e hoje está já acima das 400 ppm.
Significa isto que os níveis de CO2, que tradicionalmente levavam milénios a aumentar ou decrescer 100 ppm, subiram quase tanto (acima do seu antigo máximo) em apenas um século!

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Fonte da imagem: climate.nasa.gov/evidence/

Ao longo da história geológica da Terra, existiram épocas em que tanto a temperatura média global como a concentração de CO2 na atmosfera eram superiores às atuais. No entanto, é importante perceber que todas estas variações climáticas ocorreram ao longo de milhares ou mesmo milhões de anos. A vida na Terra consegue adaptar-se a alterações que levam milhões de anos a acontecer. Até agora os biólogos contam cinco extinções em massa (i.e. em que mais de 75% das espécies vivas se extinguem) na história terrestre. O paleontólogo Rolf Schmidt, citado pela revista Cosmos, afirma que “Nem sempre se sabe o que as causou [as extinções em massa], mas a maioria teve algo que ver com mudanças climáticas rápidas”.
Assim, o grande problema das alterações climáticas é a velocidade vertiginosa a que estão a suceder. A civilização humana foi edificada sobre as condições geográficas e climáticas específicas das várias regiões do planeta. Parâmetros como a abundância relativa de recursos hídricos e a fertilidade dos solos condicionam a dimensão populacional local. Mas alterar o clima numa região implica alterar também a sua geografia. Zonas que tradicionalmente conseguiam sustentar um grande número de pessoas poderão deixar de o fazer se, por exemplo, uma bacia hidrográfica desaparecer.
Nos países ricos existem mecanismos de adaptação que podem (e já estão a) ser adotados: a importação e transporte de recursos de outras regiões; a adoção de técnicas agrícolas que possibilitam o cultivo em regiões com clima inóspito; a instalação de barreiras e infraestruturas diversas para minimizar os impactos da subida do nível do mar; entre outros. Estes mecanismos terão implicações económicas e sociais profundas, já que o custo dos bens essenciais irá subir nestes países, aumentando a pobreza.
Já as populações dos países pobres, sem condições para implementar este tipo de soluções, não terão outra solução que não a emigração para países mais ricos. Nestas condições, conflitos entre populações pelo acesso aos recursos básicos serão cada vez mais difíceis de evitar.
Outro problema associado às alterações climáticas é o facto de existirem mecanismos de retroalimentação naturais no sistema climático, que favorecem ou contrapõem mudanças no sistema. Os chamados mecanismos de realimentação positiva, que reforçam as mudanças no clima, poderão ser cada vez mais dominantes, acelerando ainda mais o aquecimento global. Um exemplo simples é o dos incêndios florestais: as florestas, quando ardem, libertam dióxido de carbono para a atmosfera, aumentando a sua concentração; isto vai agravar o efeito de estufa e fazer subir a temperatura média global; por sua vez a subida da temperatura potencia o aparecimento de incêndios florestais, ardendo cada vez mais floresta, aumentando ainda mais o efeito de estufa, num efeito de “bola de neve”.
A única forma de contrapor este cenário, em que o clima se altera descontroladamente, é através da redução imediata das emissões humanas de GEE.
Existem duas opções: manter o cenário de business-as-usual, ou levar a cabo uma transição do atual sistema (baseada em combustíveis fósseis) para uma sociedade baseada em energia renovável nas próximas décadas. Ambas implicam alterações sociais profundas: a primeira pelas razões já descritas, a segunda pela sua natureza de transição. A grande diferença entre as duas é que as alterações sociais da primeira opção serão consequências da nossa inação perante as alterações climáticas, ao passo que as alterações sociais da segunda podem ser democraticamente decididas e implementadas.
Existe, assim, uma grande necessidade desta transição. Existem ao mesmo tempo centenas de milhares de desempregados disponíveis em Portugal, bem como os recursos físicos e tecnológicos para a implementar.
As soluções de mercado não são suficientemente rápidas e organizadas para resolver o problema, como o têm demonstrado ao longo dos últimos anos, e continuam os investimentos massivos em infraestruturas e tecnologias de petróleo, gás, carvão e novos projetos de extração destes combustíveis, mesmo após a assinatura e ratificação do Acordo de Paris. A Campanha pelos Empregos para o Clima propõe por isso que a transição para uma sociedade de baixas emissões seja feita através da criação massiva de empregos dedicados a esta mudança, de forma planeada e promovida pelo Estado, particularmente em sectores-chave como os da energia, transportes públicos e eficiência energética das habitações.


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